Marcha das Vindimas

Da actividade Marcha das Vindimas.


“Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão.”
Quem assim fala do Douro é Miguel Torga.
Exagero, hipérbole literária? Talvez que sim para quem jamais percorreu aqueles patamares pejados de vinha.
O Clube de Montanhismo da Guarda permitiu-me, pela primeira, vez olhar e sentir o vale duriense para lá dos vidros de um automóvel ou de fugazes visões em viagens mais ou menos apressadas .
Desta vez pude caminhar e suar pelos caminhos encaixados, ver de perto e ao longe as voltas e reviravoltas de uma paisagem assombrosa. Sentir o estranho silêncio daquele rio e daqueles montes. Finalmente o “Doiro”, estava ali para ombrear com as memórias de outras paragens.
Foi no miradouro de S. Leonardo, em Galafura, que começou uma espécie de lento mergulhar até ao grande rio. Mergulho que não afoga nem esconde o céu. Em vez disso abre horizontes, enquanto outro se fecham, sem que haja tempo para claustrofobia. Nem mesmo, estou seguro, aqueles que habitam a escondida  aldeia de Covelinhos. Aí o rio encarrega-se de abrir outra encosta, outra imensidão, outro “poema geológico”, como lhe chama Torga.
Estou por saber se foi apenas a paisagem a responsável por este partilhar de sensações que aqui deixo. Talvez os companheiros de marcha... Talvez o vinho generoso que fomos provando... Talvez a prosa do poeta de S. Martinho de Anta... Bom, não interessa muito. O importante é que a Marcha das Vindimas do Clube de Montanhismo da Guarda neste ano de 2011 foi esplendorosa.
Parabéns aos organizadores, especialmente porque se notou carinho no que fizeram.

Nota não menos importante: Descobri, nesta actividade, que desmontar e dobrar uma tenda de campismo pode ser uma tarefa tão ciclópica como subir ao Evereste, ou talhar os socalcos do Douro.

Guarda, 21 de Setembro de 2012
Carlos Baía 

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